por Priscila Schip
Começo de noite de domingo, atravessando a rua de pedras posso sentir a ponta do nariz mudando de cor e os dedos congelarem. Na calçada duas amigas conversam enquanto fumam um cigarro. Atrás delas a placa revela o meu destino: Sociedade Treze de Maio.
Como todo domingo, a noite é de forró. Subo as escadas e compro meu ingresso, ao caminhar em direção à entrada do salão o som vai aumentando. A cada passo as palavras são mais perceptíveis, “sertão…, toda men.. que enjô da bone… É siná que o amor, já chegou no coração…”.
Ainda é cedo e a pista comporta poucos casais. O bar ainda não tem fila e é possível enxergar as mesas e a decoração de bandeirinhas de festa junina, propositais ou esquecidas. A estrutura é simples, o chão é bom. Não chega a ser uma sala de reboco como poetizou Luiz Gonzaga, mas há certa semelhança.
A Treze de maio é antiga, foi criada em 1888 por “africanos livres”, após a abolição da escravatura. A sociedade era o ponto de encontro da população negra de Curitiba. Era o local em que convocavam reuniões, promoviam eventos e se organizavam politicamente.
Na casa a cultura negra era preservada, mas a partir da década de 50 a Sociedade passou a ser reformulada, perdendo as festividades religiosas e tradições. Também teve sua arquitetura modificada, o que a impede de ser tombada. Uma nova reforma foi realizada em 1996, na qual sumiram quadros com fotografias, placas e uma mesa centenária. Em 2006 a casa passou a receber grupos de música e organizar festas. E forrós, como os de domingo.
Menos de meia hora após a minha chegada, o salão parece outro. É impossível enxergar as mesas, e as bandeirinhas são só mais um colorido em meio a multidão. A banda ainda não chegou, mas perto do palco, cobrindo caixas de som, dezenas de blusas, casacos e bolsas repousam ao som de “É proibido cochilar, cochilar, cochilar, É proibido cochilar, cochilar, cochilar”.
No forró, pode ser no dois pra cá e dois pra lá ou no “1,2,3” do frente e trás, as sandálias se encontram com tênis, botas com chinelos e sapatos com rasteirinhas. As saias giram, vermelhas, azuis e amarelas. Há flores nas cabeças, colares nos pescoços e pulseiras nos pulsos.
O salão pulsa, revelando que o frio realmente ficou de fora. A temperatura parece passar dos 40º graus, um pouco pelo salão cheio, outro pelo calor que o exercício provoca e mais, muito mais pelo calor humano. Não um calor humano comum e sim ao pé da letra, calor que passa de corpo para corpo, a cada dança, no toque de pele, na troca de suor; transpira-se calor e troca-se.
A banda começa. “Eu fui chegando e fiquei meio assustado, era só muié bonita, era fulô pra todo lado…”. A pista, que já parecia cheia, ganha mais casais. Três meninas ficam a espreita, a espera de serem convidadas para uma dança. “Na margem do São Francisco, nasceu a beleza, e a natureza ela conservou…”. As músicas são tocadas em forma de cortinas, são três músicas corridas, sem parar, uma colada na outra. “…A gente se ilude, dizendo: Já não há mais coração!”. O casal não pode parar de dançar até que uma cortina seja completada. Os que dançam, por muitas vezes acabam se cansando, mas as moças sem par se cansam ainda mais da espera. As três meninas se sentam no palco, a espera da próxima cortina e do convite.
Com o salão cheio, é normal que um casal se esbarre no outro. Cada um tem seu estilo de dançar, tem os que dançam grudadinhos, os que parecem querer ocupar todo salão, os que dançam olhando pro chão e os que dançam cantando. Tem aqueles que giram todo o salão e os que não saem do lugar. E há os que não dançam, mas esses logo mudam de grupo.
O presidente da Sociedade, Álvaro da Silva, herdou o cargo do pai. Junto ao cargo, veio a sede de luta para manter o patrimônio histórico. A Treze de Maio conta 122 anos, contrapondo o mito de que Curitiba é uma cidade europeia, sem a memória de negros e escravos.
Com a pausa da banda a pista perde público. Uns vão beber alguma coisa, outros vão tomar um ar lá fora e outros vão embora, já que nem o forró de domingo consegue impedir a chegada da segunda-feira. Mas nem todo mundo sai do salão, muita gente não para de dançar, e enquanto a banda não volta, o dj da casa cuida do som. “Dizem que Rosinha gosta muito de dançar, não pode ver um forró que ela logo quer entrar, achei interessante não deixei de reparar…”.
Quem frequenta a Treze de Maio a conheceu por indicação de algum frequentador-amigo. A casa não tem site e nem aceita cartão, mesmo assim lota todos os domingos. Quem vai mais de uma vez, com certeza começa a notar rostos conhecidos.
A banda volta. Eles são o Areia Branca e tocam na Sociedade todos os domingos, embora eles toquem forró pé de serra e o forró universitário, são eles que tocam a ciranda, quase no fim da noite. “Eu vi mamãe oxum na cachoeira, sentada na beira do rio, colhendo lírio lirulê, colhendo lírio lirulá, colhendo lírio, pra enfeitar o seu congá…”. A ciranda é como aquela de criança, todos dão as mãos e giram. Mas diferente da brincadeira infantil, essa ciranda multiplica energia, é como um ritual.
Após a ciranda, o dj coloca as músicas “fim de festa”, ai é momento de se despedir do par, do gingado, do atabaque e do triangulo. Enfrentar a semana e aguardar até o próximo domingo, para mais uma vez chegar a rua Desembargador Clotário Portugal, 274.