A dança

Por Silvia Serpe

A dança era uma das principais artes cênicas da Antiguidade, ao lado do teatro e da música. As origens da dança são desconhecidas, afinal, é uma maneira de expressão corporal, manifestação artística ou mesmo divertimento, já os índios dançavam para atrair a chuva e cultivar as terras.

No Antigo Egito, vinte séculos antes da era cristã, já era realizada a chamada dança astroteológica, em homenagem ao Deus Osíris. Na Grécia essa arte sempre era relacionada aos jogos, em especial os olímpicos, e no Império Romano os bailarinos se apresentavam em espetáculos variados, hoje facilmente relacionados aos espetáculos circenses, o que pode caracterizar a origem da dança teatral. Durante vários séculos, essa manifestação artística era apresentada apenas para a nobreza, excluindo das apresentações a população mais pobre de cada sociedade, mas com o passar do tempo todos foram tendo acesso à dança e ela virou uma arte popular.

A arte da dança está presente em todas as culturas, em todos os países, e é singular em cada lugar. No Brasil não é diferente. Vivemos num país conhecido pelo futebol, carnaval, povo de sangue quente e mistura de várias culturas e tradições.

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Cultura, arte e alma

Por Silvia Serpe

A diversidade dos povos no Brasil trouxe muita riqueza cultural, entre elas a dança. Fomos colonizados por um país, escravos de outras nações foram trazidos para explorar nossas riquezas, imigrantes de tantos outras contribuíram para a miscigenação presente na sociedade – sem contar a cultura já existente dos índios que aqui habitavam.

Além da riqueza cultural da América Latina os povos do continente, de maneira geral, gostam de se expressar por meio da dança. Os ritmos são quentes e envolventes, como a salsa, o zouk e o samba. O Brasil foi o “criador” do estilo samba de música e dança, e por isso a nossa excelência nesse ritmo. O carnaval é umas das festas que os brasileiros mais gostam. O Sambódramo da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, é famoso pelo mundo e o desfile das escolas de samba é um evento enorme que envolve as comunidades do Rio e região metropolitana. Faz tanto sucesso, que expandiu do Rio de Janeiro para São Paulo, e o desfile das escolas de samba de São Paulo é tão procurado quanto o primeiro. Já na Bahia o
ritmo que embala o carnaval, na sua grande maioria, é o axé, e as ruas de Salvador lotam de foliões e turistas; em Pernambuco o frevo, um ritmo extremamente acelerado que mistura a capoeira nos seus passos.

A música e a dança fazem parte da nossa cultura, estão no dia a dia dos brasileiros e não é apenas no carnaval que expressamos a paixão por esta arte.  Muitas pessoas gostam de sair para dançar no final de semana, os jovens em especial, por isso a enorme quantidade de casas noturnas. Esses lugares sempre estão cheios e a música é alta, a iluminação trabalhada. As opções existem para todos os gostos, desde música eletrônica, forró, samba e ritmos típicos como a dança do ventre.

Nesses bares que exploram a dança típica os bailarinos se apresentam entre as mesas e convidam os clientes a participar. O Bagdad Café, em Curitiba, é um exemplo: a especialidade da casa é a dança do ventre, além da comida típica árabe e banda ao vivo. Segundo a equipe administrativa do bar, há sempre uma enorme procura e o principal atrativo é a Noite Árabe, que acontece nas quintas-feiras, são aproximadamente 15 bailarinos e bailarinas nessa noite especial. O Bagdad Café tem 14 anos, abre de terça a sábado e todos os dias a casa fica lotada. As bailarinas interagem com os clientes, tanto homens quanto mulheres, sem contato físico e sempre respeitando os demais. O bar é um ambiente familiar no qual
podem entrar pessoas acima de 18 anos e menores com responsável.

Mas a dança não move apenas o mercado de bares e casas noturnas, muitas pessoas a procuram como maneira de exercitar o corpo e a mente. Bruna Carvalho faz bale há 10 anos e afirma que a dança proporciona bem estar e também ajuda na forma física, além de ser uma ótima maneira para extravasar o estresse. A dançarina Sindy Suzuki, de 25 anos tem a dança como parte essencial da vida. Na infância fez aulas de bale e jazz. “Na adolescência deixei a dança de lado, mas voltei a dançar com 23 anos!”, diz Sindy animada. Voltou “bailando” dança de salão, quando foi morar no Rio de Janeiro, agora que mora e estuda em Curitiba o tempo está um pouco corrido para a dançarina. “Eu sempre gostei de dançar, é uma
paixão mesmo, e acho que é uma forma de eu exercitar o corpo e a mente. Quando estou dançando, consigo esquecer os problemas e a correria do cotidiano, e acho uma forma mais dinâmica para se fazer uma atividade física. Eu já tentei ir para academias, mas eu acho muito chato, muito monótono.”. Sindy mescla o seu tempo com a faculdade, ela é estudante de jornalismo, e o estágio, mas sempre que pode sai para dançar com as amigas. “Atualmente, eu danço conforme o tempo”, afirma Sindy que pretende aprender sertanejo e salsa.

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Técnica e beleza no palco

       Por Nathalia Cavalcante

       A Universidade Federal do Paraná (UFPR) possui em seu núcleo cultural a Téssera Companhia de Dança – que recebeu esse título em 1999 – que traz todos os anos duas grandes montagens para o público curitibano prestigiar. As duas estreias oficiais do ano são realizadas no Teatro da Reitoria. Desde a sua criação, em 1981, apresenta aos frequentadores do teatro, espetáculos que são relacionados à linguagem estética diferenciada por meio da dança contemporânea. A companhia, ao longo do ano realiza pequenas apresentações como duetos e quartetos, por exemplo.                      

       Os vinte bailarinos são preparados com a técnica da dança moderna, que visa a interpretação e a expressão, elementos essenciais para essa construção coreográfica. Porém, para que seja possível manter essa propriedade, é necessário ensaiar constantemente. Dessa forma, de segunda-feira a sexta-feira, a partir das 18h15, no prédio histórico da UFPR, a companhia realiza seus ensaios.

       O criador, diretor artístico e coreógrafo, Rafael Pacheco, no primeiro momento realiza uma aula que consiste em movimentos desempenhados pelos bailarinos. Ela é desenvolvida de maneira que eles se movimentem conforme o som do bumbo percutido pelo coreógrafo, e de acordo com os movimentos que ele solicita para os bailarinos realizarem. Após essa etapa, acontece o ensaio da coreografia, na qual é utilizado o acompanhamento do tema musical. Rafael Pacheco desenvolve com seus bailarinos a técnica de Dança Moderna Germânica, que busca uma releitura de espaço, tempo, ritmo, forma e movimento. Além de Rafael Pacheco, Cristiane Wosniak também desenvolve coreografias. A Téssera Companhia de Dança da UFPR recebeu diversos prêmios em importantes festivais do Brasil, além disso, participação na Bienal Internacional de Dança Contemporânea Universitária em Lyon, França. Segundo Rafael Pacheco, para ingressar na companhia não é necessário ter graduação em dança. “A companhia é aberta à comunidade”, diz. As audições são realizadas no mês de março.

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Durante ensaio do espetáculo intitulado Silêncio!, de dezembro de 2008. Segundo Rafael Pacheco coreografia foi pensada com o intuito de  mexer com a plateia. Essa montagem debateu a ultraviolência e a maneira como as pessoas se calam diante de tal situação. Antes da estréia, Pacheco reforçou. “O espetáculo causará impacto no público”.

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Missa de Forró

por Priscila Schip

Começo de noite de domingo, atravessando a rua de pedras posso sentir a ponta do nariz mudando de cor e os dedos congelarem. Na calçada duas amigas conversam enquanto fumam um cigarro. Atrás delas a placa revela o meu destino: Sociedade Treze de Maio.

Como todo domingo, a noite é de forró. Subo as escadas e compro meu ingresso, ao caminhar em direção à entrada do salão o som vai aumentando. A cada passo as palavras são mais perceptíveis, “sertão…, toda men.. que enjô da bone… É siná que o amor, já chegou no coração…”.

Ainda é cedo e a pista comporta poucos casais. O bar ainda não tem fila e é possível enxergar as mesas e a decoração de bandeirinhas de festa junina, propositais ou esquecidas. A estrutura é simples, o chão é bom. Não chega a ser uma sala de reboco como poetizou Luiz Gonzaga, mas há certa semelhança.

A Treze de maio é antiga, foi criada em 1888 por “africanos livres”, após a abolição da escravatura. A sociedade era o ponto de encontro da população negra de Curitiba. Era o local em que convocavam reuniões, promoviam eventos e se organizavam politicamente.

Na casa a cultura negra era preservada, mas a partir da década de 50 a Sociedade passou a ser reformulada, perdendo as festividades religiosas e tradições. Também teve sua arquitetura modificada, o que a impede de ser tombada. Uma nova reforma foi realizada em 1996, na qual sumiram quadros com fotografias, placas e uma mesa centenária. Em 2006 a casa passou a receber grupos de música e organizar festas. E forrós, como os de domingo.

Menos de meia hora após a minha chegada, o salão parece outro. É impossível enxergar as mesas, e as bandeirinhas são só mais um colorido em meio a multidão. A banda ainda não chegou, mas perto do palco, cobrindo caixas de som, dezenas de blusas, casacos e bolsas repousam ao som de “É proibido cochilar, cochilar, cochilar, É proibido cochilar, cochilar, cochilar”.

No forró, pode ser no dois pra cá e dois pra lá ou no “1,2,3” do frente e trás, as sandálias se encontram com tênis, botas com chinelos e sapatos com rasteirinhas. As saias giram, vermelhas, azuis e amarelas. Há flores nas cabeças, colares nos pescoços e pulseiras nos pulsos.

O salão pulsa, revelando que o frio realmente ficou de fora. A temperatura parece passar dos 40º graus, um pouco pelo salão cheio, outro pelo calor que o exercício provoca e mais, muito mais pelo calor humano. Não um calor humano comum e sim ao pé da letra, calor que passa de corpo para corpo, a cada dança, no toque de pele, na troca de suor; transpira-se calor e troca-se.

A banda começa. “Eu fui chegando e fiquei meio assustado, era só muié bonita, era fulô pra todo lado…”. A pista, que já parecia cheia, ganha mais casais. Três meninas ficam a espreita, a espera de serem convidadas para uma dança. “Na margem do São Francisco, nasceu a beleza, e a natureza ela conservou…”. As músicas são tocadas em forma de cortinas, são três músicas corridas, sem parar, uma colada na outra. “…A gente se ilude, dizendo: Já não há mais coração!”. O casal não pode parar de dançar até que uma cortina seja completada. Os que dançam, por muitas vezes acabam se cansando, mas as moças sem par se cansam ainda mais da espera. As três meninas se sentam no palco, a espera da próxima cortina e do convite.

Com o salão cheio, é normal que um casal se esbarre no outro. Cada um tem seu estilo de dançar, tem os que dançam grudadinhos, os que parecem querer ocupar todo salão, os que dançam olhando pro chão e os que dançam cantando. Tem aqueles que giram todo o salão e os que não saem do lugar. E há os que não dançam, mas esses logo mudam de grupo.

O presidente da Sociedade, Álvaro da Silva, herdou o cargo do pai. Junto ao cargo, veio a sede de luta para manter o patrimônio histórico. A Treze de Maio conta 122 anos, contrapondo o mito de que Curitiba é uma cidade europeia, sem a memória de negros e escravos.

Com a pausa da banda a pista perde público. Uns vão beber alguma coisa, outros vão tomar um ar lá fora e outros vão embora, já que nem o forró de domingo consegue impedir a chegada da segunda-feira. Mas nem todo mundo sai do salão, muita gente não para de dançar, e enquanto a banda não volta, o dj da casa cuida do som. “Dizem que Rosinha gosta muito de dançar, não pode ver um forró que ela logo quer entrar, achei interessante não deixei de reparar…”.

Quem frequenta a Treze de Maio a conheceu por indicação de algum frequentador-amigo. A casa não tem site e nem aceita cartão, mesmo assim lota todos os domingos. Quem vai mais de uma vez, com certeza começa a notar rostos conhecidos.

A banda volta. Eles são o Areia Branca e tocam na Sociedade todos os domingos, embora eles toquem forró pé de serra e o forró universitário, são eles que tocam a ciranda, quase no fim da noite. “Eu vi mamãe oxum na cachoeira, sentada na beira do rio, colhendo lírio lirulê, colhendo lírio lirulá, colhendo lírio, pra enfeitar o seu congá…”. A ciranda é como aquela de criança, todos dão as mãos e giram. Mas diferente da brincadeira infantil, essa ciranda multiplica energia, é como um ritual.

Após a ciranda, o dj coloca as músicas “fim de festa”, ai é momento de se despedir do par, do gingado, do atabaque e do triangulo. Enfrentar a semana e aguardar até o próximo domingo, para mais uma vez chegar a  rua Desembargador Clotário Portugal, 274.

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